Na Cracolândia, viciados rejeitam programa para não abandonar seus cães

Nesta semana, a prefeitura de São Paulo lançou um novo programa para a região da Cracolândia, desta vez com uma preocupação que visivelmente está além do tratamento aos usuários de crack: batizada de operação Braços Abertos, a ação foi destinada a desmontar a “favelinha” erguida nas ruas do Centro da capital paulista. Para receber quinze reais por dia e uma vaga em um dos quatro hotéis conveniados, os viciados devem trabalhar quatro horas diárias em serviços de varrição e frequentar cursos profissionalizantes, além de estar vinculado a algum tratamento. Logo nos primeiros dias, porém, a administração municipal se deparou com uma questão inesperada: parte dos usuários não aceitou aderir ao programa porque os hotéis vetam a entrada dos seus cachorros.

O catador Cornélio Alves, de 67 anos, abriu mão de dormir em um quarto de hotel para não abandonar seu companheiro Cabeção. Acompanhado do cão, ele caminha pelas ruas da Cracolândia empurrando uma carroça com papelões e placas de metal. “Não vou para nenhum hotel porque não posso deixá-lo”. Há dezessete anos na Cracolância, Alves já teve oito cachorros – todos encontrados na rua. “A gente divide a comida. Já passei o Natal três vezes com ele. Só eu e ele comendo peru na calçada”, disse.

Orlando Paulo Barreto, de 35 anos, também não quer sair das ruas por causa do vira-latas Mário, que percorre a Cracolândia em um carrinho de supermercado. Nesta sexta-feira, ele foi até um dos centros de apoio montados pela prefeitura no local para dar banho no cão. “Ele é como um filho para mim”, diz.

Apesar da entrada restrita, alguns animais acabaram entrando nos hotéis atrás dos donos – e logo foram expulsos pelos gerentes dos estabelecimentos. É o caso da fêmea Mel, que dorme na porta do hotel à espera do dono, Fabio Pereira Silva, de 32 anos. “Às vezes, venho aqui [do lado de fora] para para ver como ela está”, disse. Ele é um dos cadastrados no programa. Com o uniforme azul distribuído para quem aderiu ao programa, Silva sai pela rua munido de vassoura e carrinho de lixo. Mel vai no seu encalço. “Ela sempre me acompanha.”

Menos comportado do que Mel está o macho Sol, que uiva à noite sem a dona, Sanderli Silveira Leite, de 32 anos, abrigada em um dos hotéis. “Ele se acostumou a dormir comigo no barraco”, diz. Sanderli era uma das moradoras da “favelinha” desmontada nesta semana. “Gostaria que ele ficasse comigo no quarto. Já conversei com o dono do hotel, mas ele não deixa.”

Mel, Sol e cerca de quarenta cachorros que circulam pela Cracolândia são alimentados pela dona de um salão de beleza e de uma pensão, Maria Benedita das Graças, de 47 anos. “Compro seis sacos de dezoito quilos a cada duas semanas”, disse. “Se eu não cuido, eles ficam abandonados. Estou tentando doá-los para abrigos.”

Exceções – A prefeitura paulistana não confirma, mas alguns dos adeptos do programa afirmaram que a administração municipal conseguiu algumas vagas em uma pensão na região que aceitou a presença dos cães. “Se não tivesse vaga para eles [cachorros], não aceitaria fazer parte do programa. Eles são como meus filhos”, disse Vandeída Benedita da Silva, de 31 anos, dona de Sansão e Preta.

Ao todo, 111 quartos foram oferecidos para cerca de 300 viciados. Nenhum dos quatro hotéis permite a entrada de animais. A prefeitura vai gastar cerca de 1.000 reais por cada usuário cadastrado.

cahorros-Cracolandia-sp-2014-01-17-07-size-620Mel foi encontrada na Avenida São João, no Centro de São Paulo, prestes a ser atropelada, segundo Maria das Graças, dona de uma das pensões da Cracolândia. Como a cadela comia a roupa dos hóspedes, ela foi entregue aos cuidados de Lucas Pereira da Silva, um dos cadastrados no programa da prefeitura. À espera do dono, a vira-lata dorme todos os dias na porta do hotel, onde ele está abrigado, e o acompanha no trabalho de limpeza das ruas.

cahorros-Cracolandia-sp-2014-01-17-17-size-620Incomodado com a ausência da dona Sanderli Silveira Leite, o cão Sol invade um dos hotéis conveniados pela prefeitura. Sobe a escada e se depara com Sanderli já vestida com o uniforme do programa e com um pote de água. “Ele chora por mim a noite inteira”, disse. Antes de a “favelinha” ser desmontada, ele vivia com a dona dentro do barraco. “Ele dormia comigo na cama”. Além de Sol, Sanderli tem uma cadela chamada Lua.

cahorros-Cracolandia-sp-2014-01-17-24-size-620O cão Mario percorre as ruas da Cracolândia em um carrinho de supermercado, empurrado por Orlando Paulo Barreto. Ele disse que está com o cão há três meses e que não se alojou em nenhum quarto de hotel oferecido pela prefeitura porque não pode carregar o animal. O cão toma banho de mangueira em um dos postos montados pela prefeitura para atendimento aos usuários de crack. 

cahorros-Cracolandia-sp-2014-01-17-28-size-620Desde que o programa entrou em atividade, um barracão montado pela prefeitura para dar assistência aos usuários ganhou um hóspede peculiar. O cão Spike virou mascote dos assistentes sociais e agentes da prefeitura. Circula entre os viciados, que o recebem com afagos.

cahorros-Cracolandia-sp-2014-01-17-29-size-620Preta e Sansão são como chamados de filhas por Vandeída Benedita da Silva. Pelo menos esse foi argumento apresentado por ela para conseguir uma vaga em um dos hotéis que aceitam cachorros. “Sem eles eu não ia. São como filhos”, diz Vandeída. Preta foi encontrada há um ano, e Sansão, há seis meses. 

cahorros-Cracolandia-sp-2014-01-17-33-size-620Há cinco anos, a cadela Bolinha foi encontrada em uma caixa de papelão abandonada na Cracolândia por uma mulher que não quis se identificar. A vira-lata tem as unhas pintadas pintadas de esmalte.

cahorros-Cracolandia-sp-2014-01-17-38-size-620Há três anos, o catador Cornélio Alves encontrou Cabeção abandonado na rua. É seu oitavo cachorro e o mais fiel: “Os outros estão por aí”, disse, referindo-se à ausência dos outros sete animais. Alves relata que passou os últimos três natais com Cabeção: “Só eu e ele comendo peru na calçada”. Alves disse que chega a gastar metade do que ganha com a coleta de material reciclável para comprar ração.

Fonte: Veja